Cara Tristeza,
Tantos porquês estão à minha volta e tu me fazes permanecer em uma melancolia constante e talvez até infinita.
A distância social ocasionada pela crise de identidade vem certamente de suas promessas não cumpridas e o sentimento de me tornar desumano tem suas circunstâncias da imposição de minha união com você.
Está cada vez mais difícil aceitar essa realidade irreal, a qual me afasta das pessoas. Houve um tempo em que estas me pareceram vivas e presentes, mas quanto mais fui penetrando na sua criação confusa e rotineira, essas pessoas perderam sua luz e seus olhares tornaram-se vazios, quase mortos.
Sei que devo segui-lo aonde eu for, pois a vida me pede isso. E sei também que se eu deixar você eu serei coisa nenhuma, pois não conheci os sentimentos em outra realidade. Então penso na felicidade que aprendi a sentir e percebo, de tempos em tempos, que ela não existe verdadeiramente, da mesma maneira que a infelicidade e todos esses outros sentimentos que descobri convivendo com você.
Assim, a sua promessa de liberdade me parece mais como sendo um quarto escuro sem portas e janelas, uma prisão perpétua.
O único sentimento que fica e que não é passageiro é essa dita melancolia. Talvez a sua singularidade por ocasionar uma mistura de tristeza, sofrimento e falta de prazer forme, por mais contraditório que possa parecer, uma brecha entre as pedras desgastadas do quarto escuro e onde por ela penetra um fino raio de luz vindo da verdadeira realidade - aquela que um dia conheci nos olhares das pessoas amadas.
Esperança. Talvez esse seja o nome do raio de luz. Mas talvez ele também seja artificial, assim como você. Quem sabe essa outra realidade não faça parte do seu plano? Quantas coisas você ainda têm a esconder? E como confiar e acreditar em alguém se este também faz parte de você?
Sem muitas escolhas, continuarei então ao seu lado na vida artificial e melancólica, procurando enxergar a brecha de luz entre as paredes escuras da existência...


